Sonho

Você estava no banho, em uma procura incessante por limpeza de espírito e renovação de energia. Como uma atração elétrica, meus pés caminharam até o banheiro, despida dos meus temores e da minha calcinha.

A água escorria os cabelos lisos em seu rosto rígido e pensativo. Sua mão apoiava na parede enquanto sua cabeça inclinava levemente para baixo como se estivesse procurando a sanidade humana.

Você só me percebeu quando abri a porta do box.

Seu olhar era tenro e incógnito.

Quando pus meus pés descalços de frente aos seus senti o puxão das suas mãos por baixo dos meus cabelos.

Pendurei minhas pernas em seu quadril e a rigidez do seu amor pressionou a minha pélvis.

Com nossas línguas dançando ritmicamente, você me penetrou como um susto e senti a dor prazerosa de ser preenchida na selvageria do sexo animalesco. Ao mesmo tempo, experimentava seu amor no cuidado por me deixar confortável e no carinho preliminar de me enaltecer com suas atitudes.

Nessa dança, eu rebolava em seu sexo e sentia as fisgadas me fatiarem. E nosso amor era puro sonho de verão em um inverno chuvoso e frio.

Aí percebi que Cazuza estava certo quando musicalizava que “nosso amor a gente inventa”.

Porque esse eu inventei, ou talvez tenha sonhado.

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tudo certo como 2 e 2 são 5

nada tem sintonia. mas você acaba cedendo com tamanha insistência de outrem e também com uma suave esperança que tudo entre nos eixos. não entra. você persiste mais um pouco, mesmo que aquilo faça sua alma chorar. no fim, parece que todas as forças para empurrar o ser que te pressiona vão embora, o grito é calado e substituído por fingidos gemidos simplórios que nem o mais tolo acreditaria. tudo é cedido e triste e o orgasmo é completamente inexistente, o que resta são lágrimas secas e infelizes.

Com as mil e uma conclusões certas e erradas que tiramos na vida, mais erradas que certas infelizmente, uma questão veio à cabeça: a de sempre ter que estar disponível e favorável para que nosso corpo satisfaça de forma competente e sacie o prazer do outro.

gritaria

meu corpo almeja um cantinho protegido, com comida quentinha, sossego disfuncional e amor abraçado.

escrever é a minha arte gritada e medrosa que às vezes me atropela e confunde e me indaga no uso da crase na porra de um a solitário que queria ser unido com outro

tudo é confuso, inclusive essas palavras que vomito e espirro e essas vírgulas intrometidas que se jogam no meio do texto sem me perguntarem se são convidadas ou não

A agonia me sufoca e me percebo em uma prisão que tenho liberdade. Tudo é fechado e pequeno, menos minha mente que dança para todos os lados se batendo com os muros e gritando desesperadamente por socorro e pela salvação da reclusão eterna

meu hálito fede a fome

a vergonha e o desprezo que me subjugo me envergonha. queria não me importar tanto com tudo e todos e com o sempre tão remoto e cruel.

dessa semana

quase 30 anos, sem emprego, sonhos aparentemente inalcançáveis, inglês não aprendido, Austrália não conhecida e inserida em uma estrutura de medíocridade.

— nesse país há uma doutrinação para ser esquerdista.pois então não tá funcionando, já que elegemos um presidente de direita.

— não, menina. Refiro-me aos estudantes. Se vc é centro ou direita eles já te julgam porque foram ensinados nas escolas que ser de direita é errado.

— não, eles foram ensinados sobre os fatos históricos do nosso mundo que nos trouxeram até aqui. E com esses fatos tiraram suas conclusões sobre o que mais os representam.

— os fatos históricos estão errados, os autores tendenciam seus escritos para o que eles mais concordam acerca do assunto.

– 🤦🏾‍♀

Saiu da universidade às 21h00min, sentou no bar mais próximo e pediu uma unidade de cigarro e a cerveja mais barata que pagaria com o resto de suas moedas. Não tinha o hábito de fumar, mas fumou em uma vã tentativa de esvaziar sua mente tão cheia de pensamentos.

Não é que eu me considere uma escritora boa, mas me considero uma escritora

tinha uma poupançazinha do dinheiro de suas pesquisas na universidade. foi à loja e comprou uma arma. chegou em casa, tomou banho e não conseguiu, então foi dormir. o despertador tocou e simplesmente não tinha forças para levantar, esticou o braço, pegou a arma na gaveta da escrivaninha, mirou em sua cabeça e soltou o gatilho. estava sem balas. o dinheiro não foi suficiente

o cheiro do meu cabelo é da fumaça do seu beck. e você, homem poeta magrelo e crítico, olha para mim com seu desdém de político em vez de beijar minha boca para nos emaranharmos em sua poesia chorosa.

almejo amores genuínos. Deus me fez sentir que devo parar de aceitar relações que me deixam mais triste do que qualquer outra coisa. por isso, hoje desejo aquele amor com sabor de fruta mordida, que beija com carinho e faz sexo com intimidade. sem vergonhas e com total entrega porque a confiança é tanta que não se
deve temer gestos, curvas ou \textit{imperfeições}.

aquele amor simples, sem cobranças, temores, julgamentos. a paz de uma companhia singela e ás vezes profana que te incentiva em sua busca por ser alguém melhor, não que te derrube e te leve a mais procrastinações e agonias.

mas, para receber esse amor, é necessário um tantinho de maturidade consigo mesmo. no mínimo, possuir aquela independência fascinante de ser feliz sozinho, de amar estar em sua única companhia e se amar, simplesmente, buscando sempre nossa melhor versão de si mesmo para nós mesmos e também para o mundo, quando estivermos afim.